Meio nostálgico, comecei a pensar muito na década de 90. Na cultura pop da época reinavam na telona os filmes do gênero trash, nos quais vi um gancho para discutir sobre o Touro Nelore TOP 0,1%.
O leitor de safra mais nova talvez nem faça ideia, mas eram filmes com roteiros dignos de pena, que exploravam terror, comédia e uma certa dose de sensualidade.
Brinquedo Assassino, Jason Voorhees, Freddy Krueger e Michael Myers são personagens que marcaram essa época, mesmo sendo mais antigos.
Mas esses eram os melhores. Entre os piores lembro-me de um título chamado Frankenhooker, ou “Que pedaço de mulher”, no título em português. Filme tosco que serve de insight para falar do uso do TOP 0,1% mais uma vez.
O protagonista, nosso amigo Jeffery Franken, é um jovem aspirante a cientista que vê a noiva Elizabeth Shelley morrer em um “terrível” acidente com o cortador de grama. Desesperado, Jeffery Franken teve a brilhante ideia de trazê-la de volta à vida.
É o momento em que ele se torna serial killer. Das vítimas, ele desejava apenas as partes do corpo que lembrassem as da falecida Elizabeth Shelley. O objetivo? Recriar o corpo da noiva. Por isso, o nome era Frankenhooker, uma paródia de Frankenstein.

Eis que o cara consegue dar vida a um corpo que mais parecia uma cocha de retalhos. Queria uma mulher linda de volta, mas, como resultado, criou um monstro desaprumado, apesar de ser construída das melhores partes das vítimas.
Desculpe se me alonguei. Só contei a sinopse para fazer o gancho à valorização demasiada que continua a ser dada ao touro melhor em mil nos sumários de touros.
Como Arnaldinho, ex-presidente da ABCZ, me disse certa vez, tem muita gente construindo touro apenas pelo computador. E pelo que notei se tornou regra. Em parte, pela consolidação dos programas de avaliação genética.
De outra, pela grande massa de criadores entrantes na atividade pecuária, a exemplo de uma gama de produtores que estão fazendo ILP (integração lavoura-pecuária). Este, em especial, é um público seleto, altamente exigente. E o ‘melhor’ da pecuária hoje é o TOP 0,1%. Então não há sentido em frear o apetite desse povo. Já tratei do top 0,1% antes, e se realmente é ou não, deixo para o leitor concluir.
O que é o touro Nelore TOP 0,1%?
Para responder, vamos recapitular. O sumário de touros é como se fosse o catálogo dos programas de avaliação genética. Nele, encontram-se todos os produtos, os touros oferecidos, que, por sua vez, são avaliados por dezenas de características.
Na Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP) eram 35, quando escrevi esse post. Cada uma delas pode receber maior ou menor importância na ponderação do sumário.
Conforme a progênie dos animais vai sendo testada, a acurácia de cada DEP – a característica avaliada – vai aumentando, diferenciando um indivíduo do outro. Importante frisar que a escolha das características é feita de forma empírica, como lembra o professor José Fernando Garcia, da Unesp. Portanto, o programa as define. É o usuário quem deve decidir se aquilo é bom pra ele ou não. Pelo menos, assim deveria ser.
Enfim, para saber quem são os melhores ou piores touros, eles são ranqueados a partir de um índice de qualificação geral ou mérito genético, como costumo observar. O leitor o conhece como “MGT-e” na ANCP e, na ABCZ é o “iABCZ”…
Quem ranqueia os reprodutores é o índice top. TOP 0,1% é o melhor e TOP 100% é o pior dentro do programa. Normalmente, o top qualifica tanto no índice geral quanto numa DEP isolada, a fim de mostrar os melhores touros por característica.
Como fui editor da Revista AG por 12 anos, recebi pilhas de sugestões de pautas e vi dezenas de anúncios de touros Nelore TOP 0,1%. Quase nunca era informado se ele era líder em uma determinada característica ou no índice geral.
Lançava-se, assim, a isca a milhares de consumidores vorazes. Uai, mas é TOP 0,1% em quê, perguntava-me. A pastagem onde esse TOP 0,1% foi provado provinha de ILP ou pasto rapado no cerrado?
E a praxe dos sumários é eliminar a interferência ambiental, então, talvez a última parte da pergunta deveria ser uma preocupação desnecessária. Deixo para os especialistas responderem, mas lembra muito aquela história de touros de baia gerando bezerros em pastos extensivos.
“TOP 0,1% quer dizer que o indivíduo é bem avaliado na ponderação de características que formam determinado índice, mas ele pode ter alguma coisa que não seja interessante para um rebanho específico”, sempre alertou o zootecnista William Koury Filho. Essa “alguma coisa” pode ser até uma DEP negativa em algo importante para o usuário do programa.
Portanto, é sábio dizer que nem sempre o melhor touro é o TOP 0,1%. Outra coisa: ele também pode esconder um problema grave de funcionalidade e ser tardio ao abate, o que nem sempre a régua de DEPs permite interpretar.
“Agora, se for um touro sem defeito morfológico e que possua o biótipo desejado pelo pecuarista, está ótimo. Não é defeito ser TOP 0,1%, mas não é porque o é que é bom pra tudo”, advertiu o zootecnista em uma das suas colunas na AG. É o velho trocadilho que meu amigo, o médico-veterinário Fernando Velloso, usa: será que o melhor carro pra todo mundo é o Camaro Amarelo?
“É importante lembrar que nunca se falou que basta ser TOP 0,1% ou que somente os animais TOP 0,1% são bons para o pecuarista. Por outro lado, desde que não haja defeitos desclassificatórios, é correto dizer que o TOP 10% é melhor que o 20%, por exemplo”, lembra Argeu Silveira, diretor-técnico da ANCP à época deste artigo.
Peso ao nascer do touro Nelore TOP 0,1%
Grandes programas de avaliação genética na raça Nelore deixaram de monitorar a facilidade de parto (todavia, estavam voltando atrás), na contramão daquilo realizado na DEP Americana, onde ela é a primeira característica a ser observada. Lembro que até o início dos anos 2000 os programas acompanhavam.
“Os programas ponderam a característica de peso em diferentes idades, principalmente ao sobreano. Geralmente, por correlação, a gente tem um peso ao nascer maior também. Então, se selecionar só por TOP 0,1% vai ter mais problema de parto. Basta observar os líderes de sumário”, alertava Koury Filho em outras colunas. Se a genética vai ser utilizada via palheta ainda há a possibilidade de escolher uma vaca mais apropriada para receber estes genes.
A observação do zootecnista reacendeu uma velha discussão, pois alto peso ao nascer (PN) era uma queixa frequente quando da utilização de sêmen oriundo dos grandes campeões das pistas de exposição no pasto. PN requer planejamento no acasalamento para que o touro ou sêmen não seja destinado a novilhas primíparas ou àquelas de menor frame (tamanho).
Alguns programas de avaliação genética oferecem mecanismos interessantes para orientar os acasalamentos, como o MAXPAG da ANCP, que, além do controle da consanguinidade futura, possui filtro por características. “Aplicamos filtros que entregam de três a quatro possíveis touros para cada vaca. Escolhemos o reprodutor que melhor corrija deficiências morfológicas dela”, explica Eduardo Coelho, um dos proprietários da Genética Aditiva.
Em resumo, a ferramenta facilita a gestão dos reprodutores, permitindo lidar com características fracas ou até negativas. Ainda assim, não exime o produtor de entender sobre a importância do equilíbrio nas DEPs.
Há uma necessidade latente de analisar a curva de crescimento dos bovinos de produção criados a pasto no Brasil, os quais não podem ter peso adulto elevado e serem exigentes em termos de mantença.
O desequilíbrio nesta balança – entenda por uso do touro errado – compromete seriamente a performance reprodutiva da vaca zebuína, atributo responsável por fazer a raça Nelore galgar o atual patamar.
Mais leite significa bezerro mais pesado ao desmame, só que traz junto queda na fertilidade da vaca, em virtude do comprometimento do escore corporal da matriz. Já propriedades com boia farta podem investir pesado na prenhez aos 14 meses, podendo explorar todo o potencial da Stayability (longevidade), para que se multipliquem jovens matrizes que deixem ao menos três partos até os 72 meses de idade.

Quando o touro Nelore TOP 0,1% é uma faca de dois gumes?
Adquirir a nata dos programas de avaliação genética acarreta alta expectativa para correção dos defeitos genéticos de um rebanho. Pelo menos, esse era o plano de Carlos Eduardo Novaes, conhecido entre os neloristas como Cadu, que há 60 anos dedica-se à raça zebuína.
Para surpresa do experiente criador, os touros mais bem avaliados nos programas de avaliação genética trouxeram consigo graves problemas. “Esse negócio de TOP 0,1% é uma utopia. É um número legal, mas na minha fazenda não serve mais”, disse pra mim em uma matéria.
Segundo ele, o criador novato acredita que o TOP 0,1% seja o melhor, e acaba adquirindo um touro com defeito de aprumo, umbigo quase arrastando no chão e ainda com exposição de mucosa, defeitos gravíssimos num touro de campo.
Imputa no relato os partos distócicos causados pelo peso exagerado do bezerro ao nascer. “Se você pegar no sumário da ANCP ou da ABCZ os 20 melhores touros para peso, eles registram peso ao nascer muito acima do normal, o que gera problema de parto e mortalidade de bezerros”, adverte Cadu. (Esse relato já tem alguns anos.)
O titular da Fazenda Crioula criticou o problema da supervalorização dos touros TOP 0,1% com autoridade e utilizou seus próprios reprodutores como exemplo. Ele disse que um animal dele liderou o sumário da ANCP por seis anos na DEP MP 120 (maternal), perdendo o posto em 2018.
Explica que esse touro é ótimo para corrigir habilidade materna, mas quem utilizá-lo em vacas sem essa necessidade específica amargará bezerros muito pesados, desgastando a vaca, que não reconceberá na próxima estação de monta.
“Também tive um touro em primeiro lugar na Alta em peso ao sobreano, só que ele é negativo em outras características, entre elas habilidade materna”, disse Cadu. Ou seja, é preciso investigar como, quando e onde utilizar o touro TOP 0,1%.
Depois de tantos imbróglios, Cadu desistiu dos índices topes nos catálogos dos seus remates. Ele destaca apenas como os touros estão em habilidade materna, peso ao sobreano, perímetro escrotal aos 450 dias, vigor do bezerro ao nascer, se o parto foi normal e atribui uma nota de morfologia.
“A diferença entre um TOP 5% e 0,1% é muito pequena. Se o TOP 0,1% gerar perda de 3% dos bezerros ao nascimento, é melhor escolher um reprodutor que não traga esse problema, mesmo que apresente peso um pouco menor ao sobreano”, calcula o experiente criador, que julga serem bons os animais com índices entre 10 e 15%, desde que sejam equilibrados.
Interessante que nem todos os programas possuem touros ranqueados entre os 0,1 e 0,9%. É o caso da Delta Gen, que trabalha com decas (10%, 20%, 30% e assim por diante).
“É bom conhecer o índice, selecionar por ele, mas também pensar em outras características”, esclarece o gerente técnico da DeltaGen à época, Rodrigo Dias, enfatizando ser essencial o animal possuir boa avaliação, além de ser bom do ponto de vista funcional, ter bons aprumos, boa ossatura, bom posicionamento de membros, prepúcio corrigido, linha de dorso forte, pigmentação firme e ser harmônico.
“Precisamos ficar com um olho no peixe e outro no gato. Não olhar paras as DEPs é uma tremenda estupidez e só focar nelas também. Devemos interpretar os números, mas não podemos deixar de ir para o curral”, emenda William Koury.
E até qual posição um touro é confiável no programa de avaliação genética? Os especialistas, e até mesmo o Ministério da Agricultura, aconselham um top máximo de 40% (na escala, quanto mais próximo dos 100%, pior é).
Com o CEIP acontece um pouco diferente, pois as propriedades podem vender como reprodutores, no máximo, os 28% melhores touros da safra, o que, segundo, Dias, equivaleria a um TOP 20%. Já, pensando no repasse da vacada ou na inseminação artificial, ele indicaria o Deca 1 (TOP 10%).
Por fim, se há problema ou não em se valer do TOP 0,1% dependerá da configuração feita pelo usuário. Touros bem ranqueados em características isoladas podem ser empregados com sabedoria na correção de imperfeições, desde que não prejudiquem outras características de grande impacto econômico, ou ainda se pode trocar o melhor em mil por um reprodutor mais equilibrado em sua régua de DEPs e que esteja acima da média produtiva de sua propriedade.
Estudar o assunto, olhando também para a morfologia, é uma sábia forma de evitar a proliferação de Elizabeths Shelley na pecuária brasileira.